Jornal de Notícias
Eduarda Ferreira
Se toda a população mundial gastasse
energia ao nível do que o fazem os Estados Unidos e o Canadá, seriam
precisos nove planetas Terra para amortizar os efeitos climáticos que
tal desperdício desencadeia através das emissões de gases com efeito de
estufa.No todo, e até agora, a população mundial já sobrecarregou a
atmosfera duas vezes mais do que o sustentável. Os cálculos surgem no
Relatório de Desenvolvimento Humano 2007/ /08, que chama a atenção para
o facto de serem os mais pobres a arcar já com as consequências do
aumento da temperatura quando são pouco ou nada beneficiários do
consumo energético. Milhões e milhões nem sequer têm o "luxo" de uma
lâmpada acesa em suas casas.
O combate às alterações climáticas, neste Mundo dividido pela
desigualdade, só se pode fazer através da solidariedade humana, advoga
o relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(PNUD). Nesta edição relativa a 2007/08, a análise não vai para as
questões habituais da infância, saúde, escola, situação da mulher. Em
vésperas da conferência internacional que irá rever o Protocolo de
Quioto nas metas de redução de emissões e outras intervenções
ambientais, este departamento da ONU diz claramente querer influenciar
o rumo e a intensidade das medidas que combatam o aumento das
temperaturas.
São já evidentes os estragos causados pelas mudanças climáticas e eles
vão ser ainda mais intensos, traduzindo-se em mais doenças, mais fome,
mais desalojados, mais vidas perdidas, menos acesso à água e a meios de
vida como a agricultura. Outra evidência para o PNUD é que são os
pobres a pagar a maior factura das cheias, secas e tempestades, quando
o grande contributo para este estado do planeta não lhe pode ser
assacado. E essa factura será tanto maior quanto, precisamente pela sua
condição de pobres, têm poucos ou nenhuns meios de defesa. Entre 2000 e
2004, cerca de 262 milhões de pessoas foram afectadas por catástrofes
com origem climática; apenas 2% delas viviam em países desenvolvidos.
A potencialidade de maiores desastres está assinalada e coincide com o
retrato da pobreza África, Ásia, América do Sul e Central. A África
subsariana, que tem a pegada de carbono mais leve do Mundo, será a
região mais afectada. Na América Central e Caraíbas, os rendimentos do
turismo ficarão afogados numa subida de 50 centímetros do nível das
águas. No Perú, a dependência dos glaciares para o fornecimento de água
potável torna-se problemática.
Os cenários traçados pelo PNUD para alertar os decisores que vão estar
a negociar em Bali até 12 de Dezembro nem são os mais pessimistas.
Partem de um aquecimento considerado "o limiar do perigo", no valor de
dois graus acima dos valores existentes quando a industrialização
começou. Mesmo assim, com graves consequências. Na perspectiva do PNUD,
as mudanças climáticas põem em causa as expectativas de desenvolvimento
e vão mesmo contrariá-lo. Isso acontecerá com a agricultura as
colheitas, já fracas, diminuirão, levando à fome e ao êxodo. Com outras
consequências: sabe-se que em regiões afectadas pela seca aumenta a
desistência dos bancos escolares, o que vai afectar também o
desenvolvimento dos países. A herança criada pelos países ricos tem de
ser emendada por eles, defende o relatório.
Quioto pós-2012
O relatório deste ano assume-se como instrumento de pressão para que os
países mais desenvolvidos e poluidores decidam metas mais exigentes no
corte de emissões na conferência que tem lugar em em Bali, a partir do
próximo dia 3.
Mais limites propostos
Em 2020, as emissões de gases com efeito de estufa pelos países
desenvolvidos devem ser reduzidas em 30% e, em 2050, em pelo menos 80%.
Os países em desenvolvimento devem fazer um corte de 20% até 2050. Mas
os próximos dez anos são tidos como decisivos para não se atingir um
ponto de não-retorno.
Margem já reduzida
As propostas avançadas admitem já como cenário inevitável um aumento de
dois graus face à época pré-industrial que, se for excedido, dará lugar
a "alterações climáticas perigosas".
Bolsa de carbono gasta
Se as emissões globais de CO ficassem estáveis ao nível de agora (29
gigatoneladas anuais) precisaríamos já, mesmo assim, de dois planetas
para que essas emissões não mudassem o clima.
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