Grupo Algébrica
Quais as causas que levam às alterações climáticas?
Ao longo da história a terra tem tido oscilações de clima, muitas das
quais derivadas por forças naturais (variações de órbita, efeitos
solares, actividade vulcanica, …). Porém, as alterações climáticas que
estamos actualmente a debater são demasiado fortes e demasiado rápidas
para serem explicadas por forças naturais. Um dos aspectos mais
evidentes de alteração climatica é o aumento da temperatura global, ou
“aquecimento global”: calcula-se que o último meio século foi o periodo
de 50 anos com mais altas temperaturas nos últimos 1300 anos. O mundo
está próximo do nivel de mais altas temperaturas que se conhecem
durante a corrente era inter-glacial e que começou há cerca de 12 000
anos atrás.
A principal causa para o aquecimento global reside num aumento
exponencial de emissões de gases com efeito de estufa, principalmente
de dioxido de carbono. Estudos científicos (e.g., relatório IPCC, 2007)
concluem que existem fortes evidencias de que este aumento de emissões
se deve sobretudo a actividades humanas. Desde a revolução industrial
(meados século XIX), actividades como a combustão de combustiveis
fósseis (e.g., carvão, petróleo) e a alteração do uso dos solos, tem
contribuido para que que a concentração média de dioxido de carbono
esteja actualmente em 379 ppm (partes por milhao) e continue a aumentar
a um ritmo anual de 1.9 ppm. Algo particularmente preocupante, se
tivermos em conta que nos 8000 anos antes da industrialização a
concentração de dioxido de carbono aumentou apenas em 20ppm.
A preocupação maior reside no facto de que o aumento de temperatura não
vem isoladamente, mas associado com alterações ao nivel de todos os
ecosistemas terrestres, sistemas hidrológicos, instabilidade de zonas
glaciares… com consequencias para a vida humana, nas suas mais diversas
vertentes: saúde, economia, estabilidade política e social, ...
O panorama negro que é traçado neste cenário é evitável?
Devido à inércia dos sistemas climáticos, ainda que mudemos desde já a
trajectória de emissões, apenas após 2030 (e talvez só mesmo a partir
da segunda metade do século XXI) se poderão ver os resultados. Ou seja,
existem alteracões climáticas que já não se podem evitar. Para isso é
importante preparar populações, capacitá-las para fazer face a riscos
climáticos, minimizando as consequencias que terão nas suas vidas. Ou
seja, é importante desenvolver e reforçar politicas de Adaptação às alterações climáticas.
Porém, a dimensão das alterações que se verificarão depende da forma
como alterarmos desde já os nossos comportamentos. Se continuarmos a
trajectória actual de emissões, com pelo menos 80% de probabilidade em
meados do século XXI podemos estar já com aumentos de temperatura acima
de 2C em comparação com a média de temperatura no periodo
pre-industrial (o nível a partir do qual se considera que o risco de
alterações catastróficas aumenta significativamente). Para evitar
ultrapassar esse limite de 2C, é então crucial que desde já se altere a
trajectória de emissões de gases com efeito de estufa. Desenvolver uma
estratégia eficaz de Mitigação.
Que políticas podem ser implementadas para inverter este processo?
As duas linhas de acção fundamentais têm de ser, como acabei de referir: Mitigação e Adaptação.
Mitigação, alterando comportamentos e actuando sobre as causas das
alterações climáticas, tentando reduzir a probabilidade dos
acontecimentos que ainda podem ser evitaveis. As duas grandes
estratégias de mitigação que o Relatório de Desenvolvimento Humano
2007/2008 propõe são: definir um orçamento de carbono, limitando as
emissões de gases com efeito de estufa; e implementar esse orçamento,
aumentando a eficiencia no uso de energia e promovendo tecnologias de
reduzidas emissões de carbono.
A definição de um orcamento de carbono deverá começar por ser global,
no ambito de um acordo internacional que substitua o actual Protocolo
de Quioto após 2012. Contudo, esse compromisso internacional só poderá
ser efectivado se, nacionalmente, cada país assumir metas e objectivos
concretos. No Relatório propomos uma trajectória sustentável de
emissões para o mundo: atingir um máximo de emissões em 2020 (20% acima
dos níveis de 1990), e redução de emissões na ordem dos 50% em 2050
(também comparativamente a 1990). Esta trajectória tornará possível, e
apenas possível (50% probabilidade), evitar um aumento de temperatura
média global de 2C.
A situação actual nao é muito animadora. Se continuarmos a emitir ao
nivel actual, o “orçamento” sustentável de carbono para todo o século
XXI gastar-se-á entre 2032-2042. Torna-se então urgente mudar,
principalmente a forma e o tipo de energia que usamos. Neste sentido, o
Relatório também propõe alternativas que passam por: incentivos de
mercado para essa mudança (atribuir um preço ao carbono, quer através
de uma taxa às emissões, quer promovendo sistemas de
limite-e-negociação para as mesmas); encorajar e acelerar essa mudanca
de comportamentos através de políticas públicas ao nível de regulação
de padrões de qualidade na construção, em aparelhos eléctricos e de
iluminação, nos padrões de emissões de veículos, na promoção de
energias renováveis, no incentivo à investigação e desenvolvimento de
tecnologias de reduzidas emissões.
A segunda linha de acção deverá ser a de preparar populações para as
alterações climáticas que já sejam inevitáveis. Para tal há que
investir em infra-estruturas mais adequadas e resistentes ao clima
(defesas contra cheias, inundações, ou reservas de água para períodos
de seca), e investir na capacitação de pessoas para que sejam capazes
de enfrentar riscos climáticos sem que sofram reveses profundos de
desenvolvimento. Em termos de estratégias que já estão a ser
desenvolvidas, é particularmente preocupante os poucos recursos e
capacidades dos países em desenvolvimento para se adaptarem.
Ambas as linhas de acção, mitigação e adaptação, deverão ser apoiadas
por cooperação internacional. Solidariedade e coordenação
internacional, com partilha de conhecimentos e tecnologias, e com
financimento são peças fundamentais para que os desafios climático e de
desenvolvimento se possam vencer simultaneamente.
Em que medida este efeito irá afectar as populações mais desfavorecidas?
As alterações climáticas são uma ameaça futura à escala mundial, mas
também e mais urgentemente aos que já hoje vivem em piores situações de
desenvolvimento, aos mais pobres. Porque em geral vivem em áreas
ecologicamente frágeis (em zonas com grande probabilidade de secas, em
zonas costeiras onde o aumento do nível do mar pode ser catastrófico,
em bairos urbanos degradados), porque em geral estão bastante
dependentes da agricultura como forma de subsistencia, porque ainda são
confrontados com graves situações de doença (como SIDA), são as
populações hoje mais desfavorecidas que têm menor capacidade de gerir
acrescidos problemas derivados de desastres climáticos. Como
consequência da vulnerável situação em que vivem actualmente, para
estas populações as alterações climáticas podem significar
irreversíveis perdas de bem-estar ao nível de saúde, recursos
económicos e sociais de subsistencia.
São as populações hoje mais desfavorecidas que sofrerão os primeiros e
maiores efeitos negativos das alterações climáticas.
Como se podem preparar as populações para este futuro?
Em termos de adaptação, o Relatório apresenta propostas concretas a nível nacional e internacional.
Ao nível nacional, pede-se especial atenção a quatro grandes áreas:
informação e planeamento de riscos climáticos, infra-estruturas,
sistemas de seguro e protecção social, e instituições de gestão de
desastres climáticos.
Ao nível internacional, reconhece-se que já existem mecanismos e
instituições para a indispensável cooperação, mas urge-se para uma
acção maior, mais rápida e mais coesa.
Qual a diferença entre Portugal se encontrar em 28º ou 29º lugar no Relatório de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas?
As entidades internacionais que nos fornecem os dados para calcularmos
os diversos indicadores estatísticos incluem actualizações e alterações
metodológicas. Assim sendo, a comparação dos valores do Indice de
Desenvolvimento Humano (assim como das restantes estatísticas) deve ser
realizada com cuidado, pois pode comportar uma variação real (a
situação pode ser diferente em termos efectivos) e uma variação
aparente (os numeros mudam apenas devido às referidas alterações
metodológicas).
Antes de falar de Portugal, é também de salientar que os dados se
referem sempre a 2 anos anteriores à edicto do Relatório. Ou seja, este
ano de 2007, temos estatisticas de 2005. No ano passado, 2006, os dados
referiam-se a 2004.
No caso de Portugal, no Relatório de Desenvolvimento Humano de
2007/2008, e usando os dados mais recentes, o nosso país surge na
posição 29 (em 177 países e regiões), e com um valor de Indice de
Desenvolvimento Humano (IDH) de 0.897.
No Relatório de Desenvolvimento Humano de 2006, tinhamos um valor de
0.904 para o IDH e ocupávamos a posição 28. Este valor apresentado no
ano passado baseou-se nos dados que tinhamos disponíveis nesse momento.
Porém, se usarmos as séries de dados temporais mais actualizadas, o
valor que deveria ter sido publicado no ano passado para Portugal
deveria ter sido de 0.896, e a nossa posição relativa deveria também
ter sido a mesma deste ano, 29.
Em termos efectivos, nao mudámos no ranking mundial, e aumentámos muito
ligeiramente o nosso IDH (em 0.001). Significa então que, em termos de
IDH, a situação de Portugal em 2004 e 2005 foi semelhante.
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Biografia
Isabel Medalho Pereira
Especialista do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
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